
Festa dos Apóstolos São Simão e São Tadeu
Annuntiaverunt opera Dei, et facta eius intellexerunt — “Anunciaram as obras de Deus, e entenderam os seus feitos” (Sl 63, 10)
Sumário. Posto que o Evangelho e a Tradição nos digam pouco acerca das virtudes de São Tadeu e nada acerca das de São Simão, temos todavia uma garantia da sua santidade, por terem eles sido dignos de se tornarem apóstolos e mártires de Jesus Cristo. De quantas graças não deviam ser enriquecidos, quantas virtudes não praticaram para conseguirem esta dúplice glória! Se, à imitação destes santos apóstolos, cooperarmos bem com a graça que Deus nos dá, poderemos ser também homens apostólicos e mártires de paciência. Por que então não fazê-lo?
I. Posto que o Evangelho e a Tradição pouco nos digam das virtudes de São Tadeu, e quase nada das de São Simão, podemos todavia medir-lhes a grandeza pela sua sublime dignidade de apóstolos de Jesus Cristo. Como apóstolos, ambos tiveram que abandonar para sempre os seus bens, a sua casa, os amigos e os parentes; tiveram que renunciar ao próprio juízo, à própria vontade, aos próprios sentimentos.
E tudo isto para seguirem Jesus Cristo, talvez menos conhecido pelos seus milagres do que pelo ódio que lhe tinham os grandes de Israel; para seguirem Jesus Cristo, que, como recompensa de tantos sacrifícios, lhes prometia, é verdade, os futuros bens celestiais, mas para a vida presente não lhes prometia senão misérias, perseguições e sofrimentos até a morte. Ora, como teriam os apóstolos sido capazes de executar coisas tão difíceis, se não possuíssem uma virtude sólida, e especialmente uma fé viva, uma firme esperança e um amor ardentíssimo para com o divino Redentor?
Qual tenha sido o ardor do seu amor ao próximo, se pode deduzir do zelo com que trabalharam pela salvação dos homens, por meio da pregação do Evangelho. Depois de Pentecostes, São Simão foi evangelizar o Egito e com tamanho fruto que se mostrou digno do título de Zelote, com que o distingue a Santa Escritura. São Tadeu, chamado também Irmão do Senhor, segundo a carne, percorreu para o mesmo fim a Síria e a Mesopotâmia.
E, não contente de trabalhar tão felizmente para a conversão dos gentios, quis estender o seu amor a todos os fiéis, e, por inspiração divina, escreveu a sua Epístola católica, na qual os anima a estarem firmes na fé e a usarem da oração, para se manterem no amor de Deus.
In Spiritu Sancto orantes, vosmetipsos in dilectione Dei servate (1) — “Orando pelo Espírito Santo, conservai-vos no amor de Deus”
Regozija-te com os santos apóstolos, agradece a Deus em seu nome, e procura ser também homem apostólico, pela imitação das suas virtudes.
II. Não há amor maior nem mais heroico que o que dá a vida pelo amigo: “Maiorem hac dilectionem nemo habet, ut animam suam ponat quis pro amicis suis”. Foi a este grau heróico que chegou a virtude de São Simão e de São Tadeu, pois que ambos coroaram os seus trabalhos com um generoso martírio. Depois de terem trabalhado separadamente na pregação do Evangelho, reuniram-se na Pérsia, a fim de pregarem juntos e com mais eficácia naquelas vastíssimas regiões. E tão bem foram sucedidos, que os sacerdotes dos ídolos, encolerizando-se, excitaram a populaça a matar os nossos santos. Diz a tradição que São Tadeu foi degolado e São Simão serrado pelo meio, pelo que um machado e uma serra são os símbolos de seu martírio.
Regozija-te novamente com os santos Apóstolos, e escolhe-os novamente para teus protetores especiais junto de Deus. Já que não tens a dita de os poderes imitar dando a vida por Jesus Cristo, esforça-te ao menos por imitá-los na paciência, suportando com resignação o mal que te sobrevier. Diz São Francisco de Sales que o serviço de Deus consiste mais no padecer do que no obrar.
Oferece também a Jesus Cristo o sacrifício da tua vida, pronto para morrer quando, onde e como ele quer; e desde hoje aceita a morte com todas as penas que a possam acompanhar, a fim de satisfazeres à justiça divina e dares à divina bondade uma prova de amor que lhe tens. Por esta intenção implora a intercessão dos santos Apóstolos, e lembra-te que a aceitação da morte, para cumprirmos a vontade divina, nos faz merecer uma recompensa igual à dos mártires, que são mártires exatamente por terem abraçado a morte para agradarem a Jesus Cristo.
“Ó Deus, que por meio dos vossos apóstolos São Simão e São Tadeu me fizestes vir ao conhecimento do vosso Nome, concedei-me que, celebrando a sua glória eterna, cresça mais e mais na piedade”. Fazei-o pelo amor de Jesus e Maria.
Referências: (1) Jd 1, 20. (2) Jo 15, 13. (3) Or. festi.
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Duodécima semana depois de Pentecostes até ao fim do ano Eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 380-382)
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Para a Salvação é necessário o sacrifício da vontade própria
Qui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, ipse intrabit in regnum coelorum – “O que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse entrará no reino dos céus” (Mt 7, 10)
Sumário. O que faz a vontade de Deus, entrará no céu; o que não a faz, não entrará. Se portanto quisermos ser salvos, renunciemos à nossa vontade própria, e entregando-a sem reserva a Deus, digamos frequentes vezes cada dia: Senhor, ensinai-me a cumprir a vossa vontade santíssima; protesto não querer senão o que quereis Vós. Para que estejamos sempre dispostos a cumprir a vontade divina, é utilíssimo que desde de manhã nos representemos as contrariedades que nos possam suceder durante o dia.
I. O que faz a vontade de Deus, entrará no céu; o que não a faz, nele não entrará. Alguns fazem depender a sua salvação de certas devoções, de certas obras exteriores de piedade, e entretanto não cumprem a vontade de Deus. Jesus Cristo, porém, diz: “Não todos aqueles que me dizem: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus; mas entrará somente o que faz a vontade de meu Pai” — Qui facit voluntatem Patris mei, qui in coelis est, intrabit in regnum coelorum.
Portanto, se nos quisermos salvar e chegar à união perfeita com Deus, habituemo-nos a rogar-lhe sempre com Davi: Doce me, domine, facere voluntatem tuam (1) — “Senhor, ensinai-nos a fazer a vossa santa vontade.” Ao mesmo tempo desfaçamo-nos da vontade própria e entreguemo-la toda inteira e sem reserva a Deus. — Quando damos a Deus os nossos bens pela esmola, o alimento pelo jejum, o sangue pela disciplina, damos-lhe a nossa própria pessoa. Eis porque o sacrifício da vontade própria é o sacrifício mais aceito que possamos fazer a Deus; e Deus enriquece de graças ao que o faz.
Porém, para que tal sacrifício seja perfeito, deve ter duas qualidades: deve ser feito sem reserva e constantemente. Alguns dão a Deus a sua vontade, mas com reserva, e semelhante dádiva pouco agrada a Deus. Outros dão a Deus a sua vontade, mas logo em seguida tornam a retomá-la, e estes se expõem a grande risco de serem abandonados de Deus. Por isso, todos os nossos esforços, desejos e orações devem ser dirigidos ao fim de obtermos de Deus a perseverança em não querermos senão o que Deus quer. Habituemo-nos a antever desde de manhã, no tempo da meditação, as tribulações que nos possam suceder no correr do dia e a fazermos continuamente atos de resignação à vontade Divina. Diz São Gregório: Minus iacula feriunt, quae praevidentur — “São menos dolorosas as feridas antevistas”.
II. Meu Jesus, cada vez que eu disser: Louvado seja Deus, ou Seja feita a vontade de Deus, tenho intenção de aceitar todas as vossas disposições a meu respeito, no tempo e na eternidade. — Só quero o emprego, a habitação, os vestuários, o nutrimento, a saúde que me tendes destinado. Se quereis que meus negócios não surtam feliz êxito, meus projetos se esvaeçam, meus processos se percam, tudo quanto possuo seja roubado, eu também o quero. Se quereis que eu seja desprezado, odiado, posposto aos outros, difamado e maltratado, até por aqueles a quem mais amo, eu também o quero. Se quereis que eu fique privado de tudo, banido de minha pátria, encerrado numa prisão e viva em penas e angústias contínuas, eu também o quero. Se quereis que esteja sempre enfermo, coberto de chagas, estropiado, estendido sobre um leito, abandonado de todos, eu também o quero; tudo seja como Vos agradar e por quanto tempo quiserdes.
Minha vida mesma ponho nas vossas mãos e aceito a morte que me destinais; aceito igualmente a morte de meus parentes e amigos e tudo o que quiserdes. Quero também tudo o que quereis no que diz respeito ao meu bem espiritual. Desejo Vos amar com todas as minhas forças nesta vida e ir Vos amar no paraíso como Vos amam os Serafins; mas contente fico com o que bem quiserdes conceder-me. Se não quereis dar-me senão um só grau de amor, graça e glória, não quero mais do que isto, porque Vós assim o quereis. Prefiro o cumprimento de vossa vontade a todos os bens.
Numa palavra, ó meu Deus, de mim e de tudo o que me pertence, disponde como for vossa vontade; com a minha não tenhais consideração alguma, pois só quero o que Vós quereis. Qualquer que seja o tratamento que me deis, amargo ou doce, agradável ou penoso, aceito-o e abraço-o, porque tanto um como outro me virá de vossa mão. — Aceito, meu Jesus, de maneira especial a morte que me espera e todas as penas que devem acompanhá-la, no lugar e momento que for vossa vontade. Unindo-as à vossa santa morte, ó meu Salvador, Vo-las ofereço em testemunho de meu amor a Vós. Quero morrer para Vos agradar e cumprir vossa divina vontade. — Ó Maria, Mãe de Deus, obtende-me a santa perseverança.
Referências:
(1) Sl 142, 10
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 215-217)
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