
Festa de São Vicente de Paulo
Oculus fui caeco, et pes claudo; pater eram pauperum — “Eu fui o olho do cego e o pé do coxo; eu era o pai dos pobres” (Jó 29, 15-16)
Sumário. O caráter distintivo deste santo é a sua caridade para com os pobres, de modo que não havia calamidade que ele não procurasse remediar. O que o animava e o sustentava no meio dos trabalhos do seu apostolado, era o seu amor para com Deus e a dignidade sublime dos pobres quando considerados à luz da fé. Ah! Se amássemos a Jesus Cristo e nos habituássemos a vê-lo na pessoa dos pobres, a nossa caridade também seria fecunda em santas ações!
I. Considera que o caráter distintivo de São Vicente de Paulo foi a sua caridade para com os pobres. Desde a mais tenra idade desfazia-se do seu vestido para cobrir os nus e privava-se da comida para alimentar os que a não tinham. Quando adulto, aumentou-se-lhe de tal forma o amor para com os infelizes, e levou-o a fazer coisas tão grandes e tão variadas, que a Igreja não hesita em fazer dele este elogio magnífico: Nullum fuit calamitatis genus, cui paterne non occurrerit (1). Não havia calamidade que Vicente não procurasse remediar com ternura verdadeiramente paternal.
Além das abundantes esmolas por ele angariadas e distribuídas; além das várias confraternidades e associações para pessoas de ambos os sexos, por ele fundadas e dirigidas; além dos muitos hospitais eretos por seu intermédio em benefício dos pobres, instituiu ainda as Irmãs de Caridade, que se gloriam do título de Servas dos pobres. Não contente com isso, quis ainda fundar uma nova congregação de missionários aplicados principalmente ao bem espiritual dos pobres. “Nós somos os sacerdotes dos pobres”, dizia o santo a estes seus filhos prediletos, “Deus nos elegeu para o bem deles. Eles, portanto, devem ser a nossa primeira preocupação; tudo o mais é apenas acessório”.
Numa palavra, foi tão grande a caridade de São Vicente para com os infelizes, que com direito podia gabar-se com Jó de lhes ser pai: Eu era o pai dos pobres. Congratula-te com o santo, escolhe-o para teu protetor especial e dá graças ao Senhor por havê-lo feito tão semelhante a si, dando-lhe entranhas de misericórdia. Lembrando-te depois do grande bem que em prol de todos continuam a fazer na terra os filhos e as filhas de São Vicente, espalhados pelo mundo inteiro, pede ao Senhor que aumente as vocações e lhes conceda a santa perseverança.
II. O que animava e sustentava São Vicente no meio dos trabalhos do seu apostolado, era a sua ardente caridade para com o próximo e a dignidade sublime dos próprios pobres quando considerados à luz da fé. “Deus ama os pobres”, dizia o santo a seus filhos, “Jesus Cristo fez deles o objeto especial da sua missão; e por isso Jesus ama todos aqueles que amam os pobres. Pois bem: dediquemo-nos com novo ardor ao serviço dos pobres, e também poderemos esperar que em atenção a eles Deus nos amará. A experiência me ensinou, assim concluía, que aquele que em vida teve amor aos pobres, nada terá que temer na hora da morte”.
Meu irmão, imagina que esta exortação do santo se dirige também a ti; e se, em vista do teu estado, não podes socorrer os pobres corporalmente, socorre-os ao menos espiritualmente, animando-os a sofrer com paciência e resignação, exortando-os a orar, e tu mesmo roga por eles.
† “Ó glorioso São Vicente, protetor de todas as obras de caridade e pai de todos os desgraçados: vós, que jamais em vossa vida abandonastes a nenhum dos que vos imploraram, considerai a multidão dos males que pesam sobre nós e vinde em nosso auxílio. Alcançai do Senhor socorro para os pobres, alívio para os enfermos, consolação para os aflitos, proteção para os desamparados, caridade para os ricos, zelo para os sacerdotes, paz para a Igreja, tranquillidade para as nações, e para todos a salvação. Fazei que todos experimentemos os efeitos da vossa caridosa intercessão, e, assim socorridos por vós nas misérias desta vida, sejamos reunidos convosco no céu, onde não haverá nem tristeza, nem lágrimas, nem dores, mas somente gozo, felicidade e bem-aventurança eterna” (2).
“E Vós, ó Deus, que, para salvação dos pobres e disciplina do clero, destes nova família à vossa Igreja pelo Bem-aventurado Vicente, concedei-nos propício, que ardendo no mesmo espírito amemos o que amou e façamos o que ensinou” (3). Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo, vosso divino Filho, e pela intercessão de Maria Santíssima, nossa amada Mãe.
Referências: (1) Lect. VI Brev. Rom. (2) Indulgência de 100 dias. (3) Or. festi.
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 361-364)
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O feitor infiel e o dia das contas
8º Domingo depois de Pentecostes
Redde rationem villicationis tuae; iam enim non poteris villicare – “Dá conta da tua administração; já não poderás ser meu feitor” (Lc 16, 2)
Sumário. De todos os bens que temos recebido de Deus, não somos donos, senão simplesmente administradores; e na hora da morte teremos de dar contas exatas a Jesus Cristo, o juiz inexorável. É o que nos ensina a parábola proposta no Evangelho deste dia. Examinemos, pois, que uso temos feito até hoje dos talentos recebidos e dos bens da graça, e se acharmos que estivemos em falta, tomemos a resolução de nos emendar quanto antes. Quem sabe, meu irmão, dentro de que breve tempo se nos dirá também: Redde rationem – “Dá conta“?
I. Dos bens que temos recebido de Deus, nós não somos donos, de maneira que possamos dispor deles a nosso bel prazer, mas somente administradores. Devemos, pois, empregá-los segundo a vontade de Deus e dar à hora da morte conta deles a Jesus Cristo, o juiz inexorável — É isto o que, no dizer dos santos Padres, significa a parábola que no Evangelho deste dia o Senhor propõe à nossa consideração.
“Havia um homem rico”, diz Jesus, “que tinha um administrador, do qual lhe denunciaram que dissipava seus bens. Chamando-o, disse-lhe: Que ouço dizer de ti? Dá conta de tua gestão, porque d’aqui em diante não poderás mais ser administrador.”
Pára aqui um pouco e considera o rigor do juízo divino. Os santos, posto que tivessem feito o melhor uso possível dos talentos que lhes foram confiados e os houvessem feito frutificar, uns dois por um, outro cinco, outro dez (1); posto que tivessem empregado todo o tempo da sua vida em preparar o livro das contas, todavia, quando estavam para passar desta vida para a eternidade, julgaram nada terem feito e tremiam.
Assim tremia Santa Maria Madalena de Pazzi, que respondeu ao confessor que a animava:
“Ah padre, é coisa terrível o ter que comparecer perante o tribunal de Jesus Cristo!”
Tremia Santo Agatão depois de ter passado tantos anos no deserto a fazer penitência e dizia aos que lhe cercavam o leito:
“Que será de mim quando for julgado?”
Tremia o Venerável Luiz da Ponte, e tremia tanto que fazia também tremer o quarto onde estava.
– E tu, meu irmão, que dizes? Que fazes? Se neste momento o Senhor te deixasse morrer e te citasse a seu tribunal, que havias de responder a este terrível: Redde rationem – “Da conta“?
II. Continua a parábola dizendo que o feitor infiel, vendo o grande risco que corria de cair em miséria extrema, logo pensou em reparar o mal feito. E posto que o expediente de que lançou mão fosse todo em seu proveito, com prejuízo do dono, este, contudo, o elogiou, por ter agido com prudência. – Da mesma presteza devemos nós também usar, se não quisermos merecer a repreensão que “os filhos deste século são mais precavidos que os filhos da luz.”
Por isso exorta-nos o Espírito Santo: Quodcumque facere potest manus tua, instanter operare (2) – “Obra com presteza tudo quanto pode fazer tua mão”. Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje; porque o dia de hoje passa e amanhã virá talvez a morte que te impossibilitará de fazer algum bem e de remediar o mal. Numa palavra, mister é que prepares as contas, antes que venha o dia das contas. – Entretanto, conclui o Evangelho, se puderes dar esmolas, com as riquezas iníquas fazei dos pobres os teus amigos; para que quando necessitares, te obtenham de Deus a graça de uma boa morte, e assim te recebam nos tabernáculos eternos.
Meu amabilíssimo Jesus, graças Vos dou pelas luzes e pelo tempo que agora me concedeis, para reparar as desordens da minha vida passada. Desgraçado de mim! Dos bens da alma e do corpo, que me destes afim de que me servisse deles para Vos amar, e alcançasse a minha eterna salvação, eu abusei para Vos ultrajar e me precipitar no inferno. Senhor, detesto a minha ingratidão mais do que todos os outros males; peço-Vos perdão e prometo que não tornarei mais a ofender-Vos. Não, meu Jesus, não quero mais ofender-Vos, quero amar-Vos sempre com todas as minhas forças. – “Vós, porém, ó Senhor, concedei-me, pela vossa misericórdia, que meu espírito cogite sempre o que é reto e faça o que é justo: para que, já que não posso subsistir sem Vós, viva sempre conforme a vossa vontade.” (3) – Doce Coração de Maria, sede minha salvação.
Referências:
(1) Lc 19, 16 (2) Ecl 9, 10 (3) Or. Dom. curr.
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 267-269)
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